Nerdvisão Livros: O Trono do Sol. de S.L. Farrell

S.L. Farrell é um escritor que começou sua carreira com ficção científica, tendo ficado bem conhecido nesse meio nos anos 80. Porém suas obras mais marcantes surgiram quando mudou seu foco principal para a fantasia no começo dos anos 2000. E agora em 2012 a editora Leya traz ao público brasileiro sua obra mais elogiada: O Ciclo Nessântico.

O primeiro livro desta trilogia se chama O Trono do Sol, e conta com entusiasmados elogios do grande nome da fantasia contemporânea, George R.R. Martin. Lançado originalmente nos EUA em 2008, este volume nos introduz na mágica e envolvente cidade de Nessântico, o coração de um vasto e poderoso império, que domina várias nações vizinhas e terras além-mar.

A intriga, as conspirações e o fanatismo religioso são o combustível da história. A Kraljica Marguerite (título que equivale à imperadora) construiu um tempo de paz nunca visto antes, através de alianças políticas e de casamentos, sem precisar pegar em armas para uma guerra séria nenhuma vez. Porém, apesar do aparente clima de paz e harmonia nos Domínios, as intrigas e a ganância dos poderosos lordes e clérigos pode botar fim ao reinado de Marguerite.

A história como um todo gira em torno de conspirações e de maquinações, seja de quem for. Não apenas dos que desejam tomar o poder, mas também dos que querem se manter no poder ou mesmo apenas sobreviver em um mundo cruel. E a partir disso somos apresentados a uma gama rica e vívida de personagens de classes sociais distintas, de pensamentos políticos e religiosos diferentes, de objetivos e interesses dos mais diversos, mas que têm algo em comum: não titubeiam em mentir e matar para alcançarem o que querem.

Temos a jovem noviça Ana e sua família problemática, com uma mãe inválida e um pai que a vê com outros olhos. Ela luta para melhorar sua vida e a de sua família, que estava a perigo de perder o status de nobreza, ao mesmo tempo em que ansiava por poder fugir do inferno que sua vida se tornara desde a doença da mãe. E esse desejo de fuga faz com que ela acabe por se ver em meio ao furacão político do reino, se ligando aos fatos de uma maneira irreversível.

Outro personagem marcante é o Archigos Dhosti (espécie de líder supremo da Fé), um anão que teve uma chance de mudar de vida e chegou muito mais longe do ousou sonhar e desejou. Contestado por ser liberal demais, vê seu cargo e a própria vida em risco e precisa entrar com tudo no jogo para sobreviver.

Também estão presentes os conspiradores, os rebeldes, os contestadores da fé, o comandante da guarda que mesmo sendo um bom homem não deixa de cumprir com suas obrigações (por piores ou cruéis que sejam), um mendigo misterioso que parece estar em seu próprio jogo, o príncipe impaciente e suas aventuras. Enfim, de fato uma compilação de figuras bastante humanas e verossímeis, com virtudes e vícios, grandes acertos e falhas vergonhosas, e que muitas vezes não passam de meros peões.

A história de O Trono do Sol é intricada, ora lenta, ora acelerada, numa cadência muito interessante e com algumas reviravoltas realmente surpreendentes. Mas é preciso ressaltar que em alguns pontos a profundidade dos personagens e de seus diálogos deixa um pouco a desejar, ficando perigosamente perto do óbvio e do clichê batido. Eu imagino que talvez possa ser um problema de tradução, que  deixou o texto um pouco distante e frio de certa forma, quem sabe no original soe mais completo. Contudo, apesar disso, temos aqui um excelente trabalho de fantasia para adultos, que trata a magia de uma forma muito correta, sem exageros de grandiosidade, conseguindo mesclar política e religião em uma química irretocável.

Farrel é um autor muito criativo, esbanjando originalidade na escolha de nomes próprios, na estruturação da ordem social, nos costumes sociais, na criação do culto à Cénzi, e ainda na forma como a magia interage com os aspectos religiosos, associando-se de forma indelével a eles. Além disso, ele pega pequenas coisas do nosso próprio mundo, alguns nomes de lugares, de cargos e organizações de forma discreta e prática.

Pode-se dizer que nesta obra o autor traça um sutil paralelo com o mundo real, sobre a forma como alguns fanáticos religiosos têm influência demais nas questões de Estado nos dias atuais, e sobre como isso é prejudicial para a liberdade dos indivíduos. Um engajamento sócio-político que, mesmo bem discretamente, é sempre bem vindo.

Muito bem, esta é a primeira amostra de S.L. Farrell para o leitor brasileiro. Em minha opinião ela é interessantíssima, deixando o gosto de quero mais e uma excitante ansiedade pelo lançamento do segundo volume da trilogia. Recomendado para todos aqueles que apreciam literatura fantástica, e também uma história envolvente e inteligentemente escrita.

Garanta já o seu que vale a pena!

O Trono do Sol

S.L. Farrell

Editora Leya, 2012

574 páginas

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por Júlio André Gutheil
20.06.2012

Júlio também escreve para o blog: Metal Meltdown