Nerdvisão Livros – Jogador nº 1, de Ernest Cline

Na minha pálida opinião, O Jogador nº 1, de Ernest Cline está para os livros de aventura/fantasia/ficção-científica como O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortazar está para a literatura clássica mundial, salvo as devidas proporções, é claro.

Enquanto o clássico do argentino propunha uma nova experiência literária em que um livro pode ser tratado como um verdadeiro jogo, em que pode ser lido na ordem em que o leitor preferir (de trás para frente, pulando capítulos, alternando, indo e voltando) sem perder o sentido, a obra mega-nerd do americano pode ser apenas uma leitura casual ou o próprio livro do jogo pode virar um jogo parecido na vida real.

Explico: Na trama, que se passa em 2044, a vida real é insuportável. O mundo passou da beirada do colapso, não há muita comida, não há trabalhos, não há cultura. A única coisa boa é uma espécie de jogo on-line, baseado em realidade virtual onde 98% das pessoas do mundo se conectam diariamente, chamado OASIS.

Tal experiência, que também mistura os conceitos atuais de rede social e MMO foi inventado por uma mistura de Bill Gates e Steve Jobs chamado James Halliday que, antes de falecer, deixa em seu testamento um desafio para todos os usuários do OASIS: quem encontrar o EASTER EGG (ou, como está traduzido na versão brasileira: Ovo de Páscoa), não apenas herda sua imensa fortuna como se torna dono do jogo.

Acontece porém, que James Halliday cresceu nos anos 80, e é fascinado, viciado e obcecado por essa década e por tudo que saiu dela: filmes, músicas, seriados e, principalmente, os jogos de video-game.

E o OASIS não é só um lugar onde ele pôde recriar e arquivar todas essas coisas, ele também as usa como pista para que os jogadores cheguem ao tal Ovo de Páscoa. E os jogadores usam, e passam a ver, ler, jogar, ouvir tudo que foi produzido na década, tudo que fez parte da infância de Halliday. E isso vira uma febre, os anos 80 praticamente voltam, em pleno 2044. Deus nos livre.

Enfim, os jogadores que dedicam sua vida à encontrar o Ovo de Páscoa são conhecidos por Caça-Ovos e é aí que encontramos o herói do livro Wade Watts, ou mais conhecido pelo nome de seu avatar no jogo: Parzifal (referência nº 1). Um loser na vida real, que sequer tem dinheiro ou créditos para avançar no jogo, comprar teletransportes, viajar pelos planetas do Universo OASIS, mas mesmo assim… olha, acho que a parti daqui seria melhor que vocês lessem o livro para entender melhor e evitar que eu estrague a surpresa.

Mas o mais fascinante em Jogador nº 1 é que o livro é um poço de referência. Não apenas no jogo que acontece dentro do livro, mas como na própria trama. Quem conhece os filmes e jogos citados durante o livro vai sacando de onde foi que Ernest Cline tirou inspiração para cada linha, para cada acontecimento do livro.

Facilmente podemos definir Jogador nº 1 como uma mistura de O Último Guerreiro das Estrelas com Tron tendo ali uma pitada de Matrix e seguindo a boa e velha fórmula da jornada do herói utilizando o vasto terreno da memória e da nostalgia como palco para seu sucesso.

Um exemplo dessa construção de trama baseado nas referências que posso citar sem dar spoiler é que o herói do livro, Parcifal ou Wade, vive em um parque de trailers de uma cidadezinha norte-americana e se refugia de sua triste realidade conectado horas no tal OASIS. Trama muito similar ao filme oitentista O Último Guerreiro das Estrelas, no qual um rapaz pobre que também vive em um parque de trailers é recrutado por um exército espacial ao zerar seu fliperama preferido.

Aliás, talvez por conta disso, o filme sequer é citado no livro. Espertinho.

Não é spoiler se até na capa original tem a cena.

Se você for um neo-nerd, você vai entender uns 10% das referências do livro. Se for um mega-nerd, provavelmente vai entender por volta de 50/60%, agora, se for um ultra-mega-blaster nerd, que tenha nascido nos EUA e não tenha saído de casa nem para comprar cheetos, pode ser que entenda 100%.

Mas é aí que entra a genialidade do livro. Pois ele dá a chance de que qualquer um entenda tudo e mesmo que não saque as referências, possa ter uma ótima experiência lendo um excelente e divertido livro de aventura, que tem desde naves espaciais, até magos passando por robôs gigantes e trolls.

Mas se você quiser entender as referências, pode agir exatamente como os Caça-Ovos do livro e deixar o google aberto no computador ao lado enquanto lê e pesquisar sobre qualquer um dos termos, personagens, programas, séries, discos citados no livro e descobrir a única parte da cultura pop dos anos 80 que nos serviu para alguma coisa: a nerd/geek.

O livro é considerado por muitos como uma das obras mais nerds que já existiram, por outros como uma ode à cultura pop/geek atual e dos anos 80 e já tem milhares de fanáticos e seguidores ao redor do mundo.

E inclusive, como não podia deixar de ser, já se prepara para virar um filme, com lançamento para 2014 e com produção da Warner Bros, que venceu um milionário leilão pelos direitos de levar a história para a tela e já rola boatos da presença no elenco de Ellen Page, Jeff Bridges e Robert Downey Jr. (e já dá para imaginar seus personagens).

Mas não espere o filme, que certamente não trará nem 30% do há no livro, apesar de que Cline será o roteirista (um dos termos obrigatórios no contrato de direitos)… pensando bem, caberia em uma trilogia…. hum…

Enfim,  leia o livro, pesquise as referências e se divirta.

E aí? Está pronto, Player One?


Jogador Nº 1

Autor: Ernest Cline
Editora: Leya
Ano de lançamento: 2012
464 páginas

Site do livro: www.readyplayerone.com

Preço: R$ 29,70 (clique aqui para comprar)

por Paulo Ferro Jr.
08.08.2012