Antes de começar a pensar em ir ao cinema para ver essa nova versão do conto Lembramos você a preço de atacado, de Philip K. Dick, é preciso esquecer a versão de 1990, dirigido por Paul Verhoeven e estrelada por Arnold Schwarzeneger. Filme que hoje, 22 anos depois, atingiu o estato de clássico cult da aventura futurística trash.
Ao meu ver, o filme pode nem ser considerado um remake, mas sim a versão do novo diretor, Len Wiseman, e dos novos roteiristas, Kurt Wimmer e Mark Bomback do conto citado antes. E para ser justo com a nova versão é preciso evitar comparações e respeitar a visão de Wiseman, que não é de maneira nenhuma equivocada, muito pelo contrário, o diretor consegue de maneira muito digna atualizar muitos dos conceitos apresentados por K. Dick e até melhorar alguns dos pontos sublinhados por Verhoeven.
Porém, Wiseman prefere cortar tudo o que vaga demais para o terreno da fantasia e mantém tudo com um pé muito bem fincado na realidade, posto que o futuro já chegou e percebe-se que muito daquilo que os escritores de ficção-científica da segunda metade do século XX previam (mutantes, viagens interplanetárias, convivência com povos alienígenas, não vão acontecer tão cedo) porém, ele se permite certos devaneios e clichês do gênero (carros que voam, hologramas, aparelhos subcutâneos, etc.). Mas ele sabe que não nos esquecemos do filme anterior e os expectadores mais espertos conseguiram pescar duas ou três referências e homenagens ao filme de Verhoeven (a triteta é linda, mas faltou uma Thumbelina).
Na verdade, percebe-se que Wiseman bebeu muito na fonte de outro filme baseado em um conto de Philip K. Dick: Minority Report – A Nova Lei, dirigido por Steven Spielberg. Se fizermos um cena a cena é capaz de encontrarmos muitas cenas chupinhadas, já que os dois filmes usam e abusam das cenas alucinadas de fuga com objetos e tecnologias que ainda não existem, mas seria ótimo se já existissem.
O Vingador do Futuro conta a história de Douglas Quaid, que vive em um planeta terra semi-devastado onde só existem 2 lugares habitáveis, a superpotência conhecida como Federação Unida da Bretanha, onde vive o governo, os abastados e onde o céu é azul e sempre faz tempo bom, e a Colônia, que ficaria onde hoje é a Oceania, uma espécie de superfavela onde vivem os operários, os vagabundos, os que têm menos posses e onde a luz do Sol nunca chega e sempre está chovendo.
Doug vive com sua mulher Lori na Colônia, tem um emprego de operário em uma fábrica de robôs militares onde passa horas e horas executando o mesmo trabalho, mecanicamente, e sonha com uma vida melhor, mais cheia de aventuras. Até que descobre a empresa Rekall (sim, com K.) e resolve pagar para ter algumas boas memórias implantadas e diminuir sua ânsia por uma vida mais relevante.

Só que o procedimento dá errado e Doug descobre que seus desejos eram, na verdade, um reflexo de uma vida que ele já teve, e trazem à tona coisas que já haviam limpado de sua memória. E quem apagou não gosta muito disso e começam a perseguí-lo. E então Doug descobre que tudo em sua atual vida é uma mentira.
Colin Farrel, ator do qual eu, pessoalmente, não gosto muito, faz um ótimo trabalho como o herói relutante que vive no limite entre o que para ele é realidade e não é. Com um estilo de atuação que vai um pouquinho além da física, é interessante ver o contraste em seu rosto quando ele se pega fazendo coisas que não sabia que seu corpo poderia fazer.
Kate Beckinsale também me surpreendeu no papel da mulher de Doug e vilã do filme. Percebe-se que ela aproveita tudo o que aprendeu nos muitos filmes de ação que já participou para criar uma obcecada, adorável e odiável ao mesmo tempo. Nunca havia pensado nisso, mas ao lado de Mila Jovovich, Beckinsale é uma das poucas e boas atrizes de ação do cinema atual.
Bryan Cranston, o eterno Walter White de Breaking Bad é outro grande destaque, sem deixar com que sequer nos lembremos de seu papel na TV, ele encarna o Chanceler Cohageen, líder da FUB de maneira genial, cínica e maldosa, como um verdadeiro político faria nesses tempos de eleição. E surpreende até mesmo nas cenas de ação e luta.

E apesar de não ser genial (há espaço em hollywood para genialidade hoje em dia?), Len Wiseman, o diretor, cumpre bem sua função. Percebe-se que suas cenas de ação são bem cuidadas e muito bem filmadas. Fiquei aliviado por ver que o diretor tem uma ótima noção espacial e sabe passar isso muito bem na montagem do filme, utilizando-se de elementos de cena e do cenário de forma muito divertida nas cenas de ação. E isso é importante, já que o filme é frenético e não nos dá muito tempo para respirar, pensar, raciocinar.
Porém, percebe-se que ele deixa a desejar na hora de desenvolver certos conceitos. E algumas coisas que deveriam ser tratadas de uma forma mais séria, parecem ser inseridas em outros contextos apenas pelo bem da estética.
Fora que, como eu disse antes, ele parece ter bebido em todos os filmes de ação futurísticos feitos de 2000 para cá. Mas fazer o quê? O homem precisa ganhar a vida, e vivemos num tempo onde experimenta-se pouco e Hollywood prefere reciclar ideias e investir nos pasteurizados do que investir no novo. E se o diretor é limitado a pegar o pasteurizado e ir além apenas no que os diretores de arte e algum roteirista mais esperto conseguem, é isso somente o que teremos por um bom tempo.
Mas no fim das contas, O Vingador do Futuro (nunca vou entender esse título) é um filme de ação futurista bem pipoca e bem divertido, para se passar uma tarde no cinema e quando sair, nunca mais lembrar. E hoje em dia, em se tratando de blockbusters, isso já é uma ótima pedida, infelizmente.
O Vingador do Futuro
Título Original: Total Recall
Ano de Produção: 2012
Direção: Len Wiseman
Elenco: Colin Farrel, Jessica Biel, John Cho, Bill Nighy e Bryan Cranston.
Duração: 121 minutos
Distribuidora: Sony Pictures
Classificação: 14 anos
Clique aqui para ver o trailer.
por Paulo Ferro Jr.
17.08.2012















